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Chorando por Mandela

Por Elizabeth Carvalho, jornalista em Berlim

Par Elizabeth Carvalho  |  9 décembre 2013     →    Version imprimable de cet article Imprimer

A morte de um ícone como Nelson Mandela tem o dom de ultrapassar a barreira das divergências políticas e fazer o mundo cantar num mesmo diapasão.

Aqui em Berlim, a chanceler Angela Merkel se uniu ao coro choroso e afinado de estadistas europeus que destacaram sua coragem, seu heroísmo, seu exemplo de obstinação e de resistência. 

Não contam neste momento as décadas em que a Europa, que esquertejou o continente africano de ponta a ponta e o submeteu a regimes colonialistas, cooperou com o regime do apartheid ; nem as acusações de “terrorismo” que fizeram a Mandela o ex-presidente americano Ronald Reagan e a premier britânica Margaret Thatcher ; nem a recusa da Anistia Internacional em adotá-lo como prisioneiro de consciência, porque Mandela não se opunha à luta armada de libertação.

Mandela está morto, e o mito Mandela é um mito necessário a um mundo que vai aos poucos substituindo o fardo do racismo ostensivo por outras formas de dominação.

É em solo alemão que se encontra, desde 2008, o quartel-general do comando norte-americano Africom, com 43 mil soldados distribuídos em 40 bases militares, denunciado recentemente pelo jornal Süddeutsche Zeitung por conduzir, a partir daqui, uma guerra sangrenta de drones contra supostos alvos terroristas em países africanos e provocar a morte de civis. É na Alemanha que africanos em busca de asilo vem sendo sistematicamente interrogados para fornecer informações, passadas aos serviços secretos americanos no planejamento de novos ataques.

Chora-se a perda do pacifismo de Mandela, mas poucos lembram as centenas de entrevistas que deu à imprensa internacional com críticas contundentes à invasão do Iraque pelos Estados Unidos, às sanções impostas contra a Líbia de Muammar Khadafi ; e com sua defesa intransigente dos princípios da revolução cubana, e de um estado palestino que faça Israel recuar às suas fronteiras de 1967.

A morte de Mandela, representa, sobretudo, o apagar quase definitivo das luzes do século XX ; da era dos grandes líderes carismáticos que, com seus erros e acertos, conduziram seus povos às lutas de emancipação. 

Era de panteras negras como ele, como o guineense Amilcar Cabral, o grande teórico das lutas de libertação das colônias portuguesas ; o congolês Patrice Lumumba, o queniano Jomo Kenyatta, o angolano Agostinho Neto ; o moçambicano Samora Machel. 

E o vietnamita Ho Chi Minh. O chinês Mao Tsé Tung. Sobra apenas um, numa pequena ilha caribenha : o atrevido e imperdoável Fidel Castro.

O professor de historia e ciência política da Universidade de Johanesburg, Achille Mbembe, escreveu que a longa experiência carcerária de Mandela deu a ele a certeza que provavelmente todos os líderes do pantheon do século passado carregaram em algum momento : a de que somos todos, ao mesmo tempo, diferentes e semelhantes. E a ética da reconciliação e da reparação que Mandela conduziu passa exatamente por isso : pelo reconhecimento da parte que pertence ao outro, pela proclamação da diferença, pela liberdade de escolha – sem as quais não é possível a construção de um projeto de justiça universal.

Mandela se vai, mas o desafio permanece.

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